EM RESUMO

Neuropsicólogo pode dar laudo de autismo? Quem pode diagnosticar TDAH em adultos? Entenda o que dizem a Lei 4.119/1962 e a Lei do Ato Médico, o papel do psicólogo e do psiquiatra e quando é exigido relatório médico, como na CIPTEA.

Neste artigo 8 seções
  1. O que diz a lei sobre o psicólogo
  2. E a Lei do Ato Médico?
  3. Quem faz o quê
  4. Quando o laudo psicológico basta, e quando é preciso relatório médico
  5. O que um bom laudo de autismo ou de TDAH em adultos contém
  6. Sinais de alerta
  7. Fontes
  8. Perguntas frequentes
Quem pode dar laudo de autismo e TDAH em adultos? Neuropsicólogo pode dar laudo?

"Neuropsicólogo pode dar laudo de autismo?" "Quem pode dar laudo de TDAH?" "Preciso de psiquiatra ou de psicólogo?" Essas dúvidas aparecem antes mesmo de alguém procurar a avaliação, e as respostas que circulam na internet costumam ser confusas.

Neste artigo, explico o que a lei brasileira diz, o que cabe a cada profissional e por que, na prática, o melhor caminho costuma ser o trabalho em conjunto.

Resposta curta

Sim, a psicóloga ou o psicólogo pode emitir laudo com conclusão diagnóstica de autismo e de TDAH: o diagnóstico psicológico é função privativa da profissão, prevista em lei desde 1962. O médico também pode diagnosticar. O que é exclusivo do médico é a prescrição de medicamentos, e alguns documentos, como o pedido da carteira CIPTEA, exigem relatório médico por lei.

O que diz a lei sobre o psicólogo

A Lei nº 4.119, de 1962, que regulamenta a profissão, estabelece no artigo 13 que é função privativa do psicólogo a utilização de métodos e técnicas psicológicas com o objetivo de, entre outros, realizar o diagnóstico psicológico.

Na avaliação psicológica, o Conselho Federal de Psicologia exige que as conclusões se apoiem em métodos, técnicas e instrumentos reconhecidos cientificamente (Resolução CFP nº 31/2022). E o laudo psicológico é um documento regulamentado pela Resolução CFP nº 06/2019, que define o que ele deve conter, como deve ser entregue e por quanto tempo deve ser guardado.

E a Lei do Ato Médico?

Muita gente acredita que diagnosticar é exclusividade do médico. A Lei nº 12.842, de 2013, conhecida como Lei do Ato Médico, chegou a prever como atividade privativa do médico a "formulação do diagnóstico nosológico e respectiva prescrição terapêutica". Esse inciso, porém, foi vetado pela Presidência da República.

Na justificativa do veto, o governo explicou que o texto impediria programas do Sistema Único de Saúde que funcionam com a atuação integrada de diferentes profissionais, inclusive com diagnóstico feito por profissionais de outras áreas que não a médica.

O que a lei manteve como privativo do médico inclui, por exemplo, a determinação do prognóstico relativo ao diagnóstico nosológico, a indicação de internação e a realização de perícia médica. A prescrição de medicamentos também é atribuição médica.

Escrevi mais sobre o tema em psicólogos estão legalmente respaldados para fechar diagnóstico.

Quem faz o quê

Neuropsicóloga ou neuropsicólogo

  • É psicóloga ou psicólogo, e não médico. A Neuropsicologia é uma especialidade da Psicologia reconhecida pelo Conselho Federal de Psicologia.
  • Faz a avaliação neuropsicológica: entrevistas, história de vida, escalas e testes psicológicos aprovados pelo SATEPSI.
  • Emite o laudo com a conclusão, o perfil de funcionamento e as orientações, e faz a devolutiva.
  • Não prescreve medicação.

Psiquiatra e neurologista

  • São médicos e podem fazer o diagnóstico clínico.
  • Prescrevem e acompanham o tratamento medicamentoso, quando indicado.
  • Investigam causas e condições médicas associadas, com exames quando necessário.
  • Emitem relatórios médicos, exigidos em algumas situações.

É comum o psiquiatra encaminhar para a avaliação neuropsicológica, e o laudo voltar para ele como base para as decisões de tratamento. Em adultos com suspeita de autismo ou de TDAH, essa integração costuma ser o caminho mais completo.

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Quando o laudo psicológico basta, e quando é preciso relatório médico

O laudo neuropsicológico é aceito para muitas finalidades, como orientar o tratamento, fundamentar pedidos de adaptação nos estudos e no trabalho e documentar o diagnóstico. Mas algumas regras exigem, expressamente, documento médico.

O exemplo mais conhecido é a Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (CIPTEA). A Lei nº 13.977, de 2020, determina que o pedido seja acompanhado de relatório médico, com a indicação do código da CID. Detalhei isso em qual laudo apresentar para solicitar a CIPTEA.

Cada instituição, concurso, empresa ou benefício pode ter regras próprias. Antes de pedir um documento para um fim específico, vale conferir no edital ou no órgão qual documento é aceito.

O que um bom laudo de autismo ou de TDAH em adultos contém

  • Identificação, motivo da avaliação e quem solicitou.
  • Procedimentos utilizados: entrevistas, fontes de informação e instrumentos.
  • Análise que integra a história desde a infância, os resultados e a observação clínica.
  • Conclusão, com o diagnóstico ou a hipótese diagnóstica e a classificação utilizada.
  • Orientações práticas e encaminhamentos.
  • Prazo de validade do conteúdo, como exige a Resolução CFP nº 06/2019.

Pela mesma resolução, a entrega do laudo é feita em entrevista devolutiva, obrigatória. Veja também laudo neuropsicológico: o que é e para que serve e as diferenças entre os documentos psicológicos.

Sinais de alerta

  • Laudo emitido depois de um único questionário respondido online.
  • Promessa de diagnóstico antes da avaliação.
  • Ausência de entrevista sobre a história de vida.
  • Documento sem descrição dos procedimentos utilizados.
  • Profissional sem registro ativo no conselho. O registro de psicólogas e psicólogos pode ser conferido no Cadastro Nacional do Conselho Federal de Psicologia.
Avaliação de autismo em adultos Avaliação de TDAH em adultos

Fontes

  1. Brasil. Lei nº 4.119, de 27 de agosto de 1962 (dispõe sobre os cursos de formação em Psicologia e regulamenta a profissão de psicólogo), art. 13. www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/1950-1969/l4119.htm
  2. Brasil. Lei nº 12.842, de 10 de julho de 2013 (Lei do Ato Médico), art. 4º. www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2013/lei/l12842.htm
  3. Brasil. Mensagem de veto nº 287, de 10 de julho de 2013 (razões do veto ao inciso I do art. 4º da Lei nº 12.842/2013). www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2013/Msg/VEP-287.htm
  4. Brasil. Lei nº 13.977, de 8 de janeiro de 2020 (Lei Romeo Mion, que cria a CIPTEA). www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2020/lei/l13977.htm
  5. Conselho Federal de Psicologia. Resolução CFP nº 06/2019 comentada: regras para a elaboração de documentos escritos produzidos pela(o) psicóloga(o). site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2019/09/Resolu%C3%A7%C3%A3o-CFP-n-06-2019-comentada.pdf
  6. Conselho Federal de Psicologia. Nova resolução do CFP destaca diretrizes para a avaliação psicológica (Resolução CFP nº 31/2022). site.cfp.org.br/nova-resolucao-do-cfp-destaca-diretrizes-para-a-avaliacao-psicologica
  7. Conselho Federal de Psicologia. Conselho Federal publica novas regras para obtenção de registro de especialista em Psicologia (Resolução CFP nº 23/2022). site.cfp.org.br/conselho-federal-publica-novas-regras-para-obtencao-de-registro-de-especialista-em-psicologia

Perguntas frequentes

Neuropsicólogo pode dar laudo de autismo?

Sim. O diagnóstico psicológico é função privativa da psicóloga e do psicólogo, conforme a Lei nº 4.119/1962, e o laudo psicológico é regulamentado pela Resolução CFP nº 06/2019. A neuropsicóloga pode concluir pelo diagnóstico de autismo a partir de uma avaliação completa.

Quem pode dar laudo de TDAH em adultos?

A psicóloga ou o psicólogo, por meio da avaliação psicológica ou neuropsicológica, e o médico, em geral o psiquiatra ou o neurologista. A prescrição de medicamentos é exclusiva do médico.

Neuropsicólogo é médico?

Não. No Brasil, neuropsicóloga ou neuropsicólogo é psicóloga ou psicólogo com especialização em Neuropsicologia, uma especialidade reconhecida pelo Conselho Federal de Psicologia.

Diagnóstico é exclusividade do médico?

Não. A Lei do Ato Médico chegou a prever o diagnóstico nosológico como atividade privativa do médico, mas esse trecho foi vetado. Continuam privativos do médico, por exemplo, a prescrição de medicamentos e a perícia médica.

O laudo do psicólogo serve para tirar a carteira do autista (CIPTEA)?

A Lei nº 13.977/2020 exige que o pedido da CIPTEA seja acompanhado de relatório médico com o código da CID. Para outras finalidades, cada instituição define os documentos que aceita.

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SOBRE QUEM ESCREVEAline Vicente

Psicóloga e neuropsicóloga, CRP 12/20020. Especialista em Neuropsicologia pelo CFP, sócia fundadora da Clínica PsicoVivendo e criadora do RastreioNeuro.

Publicado em 15 de outubro de 2026. Este conteúdo é informativo e não substitui uma avaliação individual com um profissional de saúde.