EM RESUMO

Três comandos de IA para psicólogas e psicólogos usarem como apoio editorial no laudo neuropsicológico, sem delegar interpretação nem diagnóstico. Com o que o CFP orienta, cuidados de sigilo e o Método 5R.

Neste artigo 9 seções
  1. O que o CFP diz antes de você copiar qualquer comando
  2. O Método 5R em uma linha por etapa
  3. Comando 1: delimitar o papel da ferramenta
  4. Comando 2: separar evidência e inferência
  5. Comando 3: revisão ética e de sigilo
  6. Cuidados que valem para os três comandos
  7. O que tem nos outros 32 comandos do guia
  8. Fontes
  9. Perguntas frequentes
Aline Vicente corrigindo testes, ao lado do título: Comandos de IA para o laudo neuropsicológico

Muitas colegas já usam assistentes de inteligência artificial para organizar anotações e revisar textos. O problema é que um pedido genérico, como “escreva a conclusão deste laudo”, entrega à ferramenta justamente o que não pode sair das nossas mãos: a interpretação, as hipóteses e a decisão clínica.

Neste artigo, compartilho três comandos do meu guia “Escrita Neuropsicológica Assistida por IA”, exatamente como estão no material. Eles servem para usar a IA como apoio editorial, com limites claros, e você pode copiar e adaptar à sua rotina.

Em resumo

O Manual Orientativo do CFP (2025) admite o uso da IA como apoio na organização, na redação e na padronização de documentos, mas nunca como substituta do julgamento profissional. Os três comandos abaixo delimitam o papel da ferramenta, separam evidência de inferência e revisam o texto quanto a ética e sigilo. Use sempre texto fictício ou minimizado e confira cada frase antes de assinar.

O que o CFP diz antes de você copiar qualquer comando

Na questão 16 do Manual Orientativo de Registro e Elaboração de Documentos Psicológicos (CFP, 2025), o Conselho responde que é possível usar a inteligência artificial na elaboração de registros e documentos, “desde que resguardados os cuidados éticos, técnicos e legais e de sigilo profissional”. O manual lista como possibilidades:

  • auxiliar na formatação e na clareza da redação;
  • sugerir a estrutura de documentos, como os tópicos obrigatórios de um laudo;
  • apoiar a sistematização de dados de entrevistas, escalas e observações;
  • ajudar na organização de relatórios extensos.

E deixa três limites: o conteúdo clínico (interpretações, conclusões e hipóteses diagnósticas) é elaborado exclusivamente pela psicóloga; é preciso evitar inserir informações sensíveis em sistemas de IA sem respaldo legal ou ético; e a responsabilidade pelo documento é integralmente da profissional. Escrevi sobre isso com mais detalhes no artigo o que o CFP orienta sobre IA em laudos e documentos.

O Método 5R em uma linha por etapa

Os comandos do guia seguem o Método 5R, uma estrutura didática que criei para lembrar, em cada tarefa, o que é da ferramenta e o que é da psicóloga:

  • Resguardar o sigilo e os dados: só texto fictício ou minimizado, sem elementos que identifiquem a pessoa.
  • Registrar as fontes e os resultados: cada informação precisa ter origem conhecida.
  • Raciocinar: a interpretação é sua, nunca da ferramenta.
  • Redigir com apoio editorial, sem inventar fatos.
  • Revisar cada frase antes de usar.

O Método 5R não é protocolo do CFP, nem teste psicológico, nem método diagnóstico. É um roteiro de cuidado para o uso de uma ferramenta de texto.

Comando 1: delimitar o papel da ferramenta

É o comando que abre qualquer atividade. Ele combina com a IA, logo de início, que ela não vai avaliar, interpretar nem diagnosticar.

Para que serve: abrir uma atividade sem permitir delegação da avaliação.

Antes de usar: definir a seção a trabalhar e as salvaguardas de dados.

Vou utilizar você somente para apoio editorial. Não realize avaliação psicológica nem formule interpretações, hipóteses ou diagnósticos. Não analise testes e não produza conclusões não escritas por mim. Trabalhe apenas com o material fornecido nesta tarefa, sem recuperar ou combinar dados de outros casos. Se uma frase exigir juízo clínico, interrompa e identifique o ponto como "decisão da psicóloga". Ao terminar, separe texto revisado e pendências de conferência.

Conferência profissional: confirme que a resposta não se apresenta como avaliação ou parecer independente.

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Comando 2: separar evidência e inferência

Um erro comum na escrita do laudo é um relato virar, sem perceber, um achado objetivo. Este comando organiza as frases pela origem da informação, sem completar lacunas.

Para que serve: evitar que relato subjetivo vire achado objetivo.

Antes de usar: selecionar notas sintéticas, sem elementos identificáveis.

Classifique as frases fornecidas em quatro categorias: (1) autorrelato, (2) heterorrelato, (3) observação profissional registrada, (4) resultado já corrigido e validado. Crie uma quinta coluna "interpretação profissional existente" apenas quando eu tiver escrito expressamente essa interpretação. Não preencha lacunas. Frases: [TRECHOS]. Ao final, apresente itens cuja origem está ambígua para minha revisão.

Conferência profissional: revise se cada categoria corresponde ao registro original e à pessoa que informou.

Comando 3: revisão ética e de sigilo

Antes de entregar qualquer documento, vale perguntar: tudo o que está aqui é necessário para a finalidade? Este comando ajuda a enxergar exposição desnecessária, sem apagar nada sozinho.

Para que serve: identificar exposição desnecessária, com revisão humana final.

Antes de usar: trabalhar somente com texto minimizado e ambiente de revisão permitido.

Atue como revisor de minimização textual. A partir deste excerto [TEXTO MINIMIZADO], sinalize informações de terceiros, detalhes íntimos, nomes, locais, datas, eventos raros e trechos possivelmente desnecessários para a finalidade [FINALIDADE]. Não exclua conteúdo automaticamente nem declare que ele pode ser compartilhado. Apresente sugestões de cortes para avaliação da psicóloga e explique, em uma frase, por que cada trecho merece revisão.

Conferência profissional: a profissional decide o conteúdo essencial e o destinatário legitimado a recebê-lo.

Cuidados que valem para os três comandos

  • Não cole o laudo inteiro nem dados reais. Retirar nome e CPF não basta: idade, profissão, cidade, datas e eventos raros também podem identificar a pessoa. Prefira exemplos fictícios ou trechos minimizados.
  • Dado de saúde é dado sensível. A Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018) trata dados referentes à saúde como dados pessoais sensíveis, com regras próprias de tratamento.
  • A IA pode inventar. Referências, códigos da CID, percentis e resultados sugeridos por uma ferramenta precisam ser conferidos nas fontes originais e nos documentos da avaliação.
  • Os colchetes são lacunas. Onde aparece [TRECHOS] ou [TEXTO MINIMIZADO], entra apenas o material que você já preparou para essa finalidade.
  • Quem assina responde. A revisão final, frase por frase, é sua.

Para conferir a estrutura do documento, os itens obrigatórios estão na Resolução CFP nº 06/2019, que comentei no artigo como elaborar o laudo neuropsicológico.

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O que tem nos outros 32 comandos do guia

Os três comandos deste artigo fazem parte de um caderno com 35. No guia completo, eles estão organizados pelas etapas da escrita:

  • Organização das fontes: inventário documental, linha do tempo, convergências e divergências entre informantes e lacunas para revisão.
  • Seções do laudo: demanda, procedimentos, histórico, relato ativo, heterorrelatos, observações e limites da avaliação.
  • Domínios cognitivos: atenção, memória, funções executivas, funcionamento intelectual, linguagem, habilidades visuoespaciais, aprendizagem, aspectos emocionais e funcionamento adaptativo.
  • Revisão e entrega: coerência entre domínios, síntese final, rastreabilidade das afirmações, resumo acessível para a devolutiva, português técnico e checklist final de assinatura.

Todos seguem a mesma lógica dos três que você viu aqui: finalidade, cuidado antes de usar, comando e conferência profissional. O guia também traz o Método 5R explicado passo a passo, exemplos inteiramente fictícios e listas de verificação ética.

Conhecer o guia completo Ler o que o CFP orienta sobre IA

Fontes

  1. Conselho Federal de Psicologia (2025). Manual Orientativo de Registro e Elaboração de Documentos Psicológicos. Questão 16: uso da Inteligência Artificial na elaboração de registros e documentos. site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2025/11/Manual_Orientativo.pdf
  2. Conselho Federal de Psicologia. CFP divulga posicionamento sobre inteligência artificial no contexto da prática psicológica. site.cfp.org.br/cfp-divulga-posicionamento-sobre-inteligencia-artificial-no-contexto-da-pratica-psicologica
  3. Conselho Federal de Psicologia. Inteligência artificial na Psicologia: guia para uma prática ética e responsável. site.cfp.org.br/publicacao/inteligencia-artificial-na-psicologia-guia-para-uma-pratica-etica-e-responsavel
  4. Conselho Federal de Psicologia. Resolução CFP nº 06/2019 comentada: elaboração de documentos escritos produzidos pela(o) psicóloga(o). site.cfp.org.br/cfp-publica-versao-comentada-da-resolucao-sobre-a-elaboracao-de-documentos-escritos
  5. Brasil. Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018. Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2018/lei/l13709compilado.htm

Perguntas frequentes

Posso usar ChatGPT ou outra IA para escrever o laudo neuropsicológico?

O Manual Orientativo do CFP (2025) admite a IA como apoio na organização, na redação e na padronização de documentos, mas nunca como substituta do julgamento profissional. Interpretações, conclusões e hipóteses diagnósticas são elaboradas exclusivamente pela psicóloga, que responde integralmente pelo documento.

Posso colar dados do paciente no comando?

Não por padrão. O próprio manual do CFP orienta evitar inserir informações sensíveis em sistemas de IA sem respaldo legal ou ético, e a LGPD trata dados de saúde como dados sensíveis. Use texto fictício ou minimizado, sem elementos que identifiquem a pessoa.

Os comandos deste artigo funcionam em qualquer ferramenta de IA?

Eles foram escritos em linguagem comum e podem ser adaptados a diferentes assistentes. A adequação da ferramenta, porém, depende das configurações, das garantias de proteção de dados e do tipo de informação envolvida, e essa análise cabe à profissional.

O que é o Método 5R?

É uma estrutura didática criada por Aline Vicente, com cinco etapas: Resguardar, Registrar, Raciocinar, Redigir e Revisar. Serve para delimitar o que é tarefa da ferramenta e o que é responsabilidade da psicóloga. Não é protocolo do CFP, teste psicológico nem método diagnóstico.

Onde encontro os outros 32 comandos?

No guia digital “Escrita Neuropsicológica Assistida por IA”, com 35 comandos adaptáveis, o Método 5R, exemplos fictícios e listas de verificação ética. O guia custa R$ 67 em compra única e não gera laudos nem diagnósticos automáticos.

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Retrato de Aline Vicente
SOBRE QUEM ESCREVEAline Vicente

Psicóloga e neuropsicóloga, CRP 12/20020. Especialista em Neuropsicologia pelo CFP, sócia fundadora da Clínica PsicoVivendo e criadora do RastreioNeuro.

Publicado em 3 de novembro de 2026. Artigo educativo baseado em fontes oficiais, que não substitui a consulta às normas vigentes nem a orientação do CRP competente. O produto citado é de autoria independente e não possui certificação do CFP.