Diabetes e pressão alta podem afetar a memória e a atenção, pelos pequenos vasos do cérebro. Veja, num caso ilustrativo, o que a avaliação neuropsicológica mostra, o que significa microangiopatia e lesão no tálamo na ressonância, e o que fazer.
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“Eu levanto para buscar alguma coisa e, quando chego lá, já não sei o que era.” Escuto frases assim com frequência no consultório, muitas vezes de pessoas que convivem há anos com diabetes e pressão alta. A preocupação costuma vir junto: “será que é o começo de uma demência?”.
Neste artigo, explico como essas duas condições podem afetar o cérebro, por que a memória e a atenção costumam ser as primeiras a dar sinais e o que uma avaliação neuropsicológica consegue mostrar. Para deixar tudo mais concreto, uso um caso ilustrativo, inspirado na prática clínica.
Diabetes e pressão alta estão entre os fatores de risco para declínio cognitivo e demência que podem ser modificados. Elas afetam principalmente os pequenos vasos do cérebro, o que pode deixar a atenção, a velocidade e a busca das lembranças mais difíceis. Uma lesão em uma área estratégica, como o tálamo, também pode contribuir. A avaliação neuropsicológica mostra o que está preservado e o que está difícil; quem investiga a causa das alterações da ressonância é o neurologista.
Um caso ilustrativo
Este é um caso ilustrativo, inspirado em atendimentos reais. Nomes, idade, profissão e outros detalhes foram alterados ou omitidos para preservar o sigilo. Ele serve para explicar o raciocínio da avaliação, não para descrever uma pessoa específica.
Imagine um homem de pouco mais de 60 anos, com formação superior e um trabalho intelectual exigente, que convive há anos com diabetes e pressão alta. Ele chega à avaliação dizendo que anda esquecido: perde a intenção do que ia fazer poucos minutos depois, sai de casa sem a carteira, esquece objetos quando viaja. Também se sente mais lento, cansado e desanimado, e o trabalho, que antes fluía, passou a pesar.
Ao longo da avaliação, o quadro que aparece é mais detalhado do que “memória ruim”:
- Raciocínio preservado: nos testes de inteligência, ele vai bem, inclusive acima da média no raciocínio com figuras e padrões. Não há sinal de perda intelectual global.
- Atenção com dois lados: quando precisa manter o foco em uma única tarefa, o desempenho é bom. Quando precisa dividir a atenção entre duas coisas ou alternar rapidamente entre elas, o desempenho cai.
- Aprender listas custa mais: numa tarefa em que ouve a mesma lista de palavras várias vezes, ele aprende pouco a cada repetição e, depois de um intervalo, lembra menos palavras do que o esperado.
- Reconhecer é mais fácil do que lembrar sozinho: quando as palavras aparecem misturadas a outras, ele reconhece várias delas. Isso sugere que parte da informação foi guardada, mas é difícil de buscar sem pistas.
- Lembranças antigas intactas: ele conta com riqueza de detalhes a própria história, a infância e a vida profissional, e reconhece e nomeia imagens sem dificuldade.
A ressonância magnética de crânio, pedida durante o processo, trouxe dois achados: pequenas alterações na substância branca descritas como microangiopatia discreta e uma pequena área de cicatriz antiga no tálamo, com sinal de um sangramento antigo. A seguir, explico o que cada coisa significa.
Por que diabetes e pressão alta afetam a memória
O cérebro depende de uma rede enorme de vasos sanguíneos, dos grandes aos muito finos. Os vasos finos irrigam principalmente a substância branca, que funciona como a fiação que liga as diferentes regiões do cérebro entre si.
Com os anos, a pressão alta e o diabetes podem danificar justamente esses pequenos vasos. A declaração científica da American Heart Association sobre o tema resume que a hipertensão altera a estrutura e o funcionamento dos vasos do cérebro e leva a danos na substância branca, em regiões importantes para a cognição. A revisão de Biessels e Despa (2018) descreve que o diabetes está associado tanto a pequenas reduções no desempenho cognitivo, que avançam devagar, quanto a um risco maior de comprometimento cognitivo e demência, sobretudo depois dos 65 anos.
Quando a fiação fica comprometida, a informação circula com mais dificuldade. Por isso, nessas condições, é comum que as queixas apareçam primeiro como:
- lentidão para pensar e para responder;
- dificuldade para dividir a atenção ou alternar entre tarefas;
- mais esforço para organizar o dia e começar as atividades;
- dificuldade para lembrar algo na hora em que se precisa, mesmo que a lembrança volte depois, com uma pista.
Em 2024, a Comissão da revista The Lancet sobre prevenção de demência listou 14 fatores de risco que podem ser modificados, entre eles a pressão alta e o diabetes. Pela estimativa da comissão, quase metade dos casos de demência, cerca de 45%, poderia em teoria ser prevenida ou adiada se esses fatores fossem eliminados. É uma estimativa populacional, e não uma previsão para uma pessoa, mas mostra o quanto cuidar da saúde do corpo também é cuidar da memória.
Se você quiser se aprofundar no quadro vascular, escrevi também sobre os transtornos neurocognitivos de causa vascular.
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O que significa “microangiopatia” na ressonância
Microangiopatia é um termo usado para alterações nos pequenos vasos. Na ressonância, ela costuma aparecer como pequenos pontos ou manchas mais claros na substância branca nas sequências chamadas T2 e FLAIR. Os pesquisadores chamam esse conjunto de achados de doença de pequenos vasos cerebrais, e uma referência internacional (Wardlaw e colaboradores, 2013) padronizou como eles devem ser descritos.
O laudo muitas vezes traz uma nota na escala de Fazekas, criada em 1987, que gradua essas alterações de 0 a 3. O grau 1 corresponde a focos pequenos e pontuais, a forma mais leve. Achados assim também aparecem em pessoas mais velhas sem queixa nenhuma, por isso o laudo costuma chamá-los de “inespecíficos”. O que dá sentido a eles é a soma com a história, os fatores de risco e o exame cognitivo.
E quando aparece uma lesão no tálamo?
O tálamo fica no centro do cérebro e funciona como uma grande central de distribuição: boa parte da informação que chega ao córtex passa por ele, e ele participa de circuitos ligados à atenção, à memória, à motivação e ao humor.
Por estar em posição tão estratégica, uma lesão pequena no tálamo pode ter efeito maior do que o tamanho sugere. A revisão de Schmahmann (2003) sobre os quadros vasculares do tálamo descreve que, dependendo da região atingida, as lesões podem trazer dificuldades de aprendizagem e memória, de atenção, de funções executivas e mudanças de motivação e de humor. Lesões no lado esquerdo também podem afetar a linguagem, como a busca de palavras.
Quando a ressonância mostra depósito de hemossiderina, ela está mostrando um resto de ferro deixado por um sangramento antigo, geralmente pequeno. Esses sinais, chamados de micro-hemorragias quando são pontuais, são considerados marcadores de doença dos pequenos vasos, como explica a revisão de Greenberg e colaboradores (2009).
Uma alteração na ressonância não prova, sozinha, que ela é a causa do esquecimento. A avaliação neuropsicológica mostra se o padrão cognitivo é compatível com o achado. Quem investiga a origem da lesão e decide se são necessários outros exames é o neurologista.
Humor e sono também pesam na memória
No caso ilustrativo, havia desânimo, cansaço e noites interrompidas. Isso importa muito. A depressão afeta a atenção, a memória e as funções executivas: uma metanálise de Rock e colaboradores (2014) encontrou prejuízos moderados nessas áreas em pessoas com depressão, e parte deles continuava mesmo depois da melhora do humor. O sono ruim, a dor, o efeito de alguns remédios e o açúcar no sangue fora de controle também podem deixar a mente mais lenta no dia a dia.
Na prática, é raro existir uma causa só. Na maioria das pessoas, as dificuldades vêm da soma de vários fatores, e é por isso que a avaliação olha para tudo junto: a história, o corpo, as emoções e o desempenho nos testes.
O que a avaliação neuropsicológica faz nesses casos
- Separa atenção de memória: nem todo esquecimento é falha de memória. Muitas vezes a informação nem chegou a ser bem registrada porque a atenção estava dividida.
- Mostra o que está preservado: no caso ilustrativo, o raciocínio, a linguagem e as lembranças antigas estavam bem. Isso ajuda a pessoa e a família a entender que não houve uma perda geral.
- Descreve o padrão: dificuldade para buscar a lembrança, com reconhecimento melhor, sugere um caminho diferente de uma perda rápida da informação. Esse padrão ajuda o médico no raciocínio diagnóstico.
- Orienta os encaminhamentos: neurologista para investigar a ressonância; médico clínico e nutricionista para o controle da glicose e da pressão; psicoterapia e acompanhamento do humor e do sono.
- Traz estratégias para o dia a dia: agenda, lembretes no celular, listas, um lugar fixo para chave e carteira, uma tarefa de cada vez.
- Serve de linha de base: com a reavaliação depois de um período de tratamento, dá para saber se as dificuldades se mantiveram, melhoraram ou mudaram.
E controlar a pressão ajuda? No estudo SPRINT MIND (2019), feito com adultos com pressão alta e sem diabetes, manter a pressão sistólica abaixo de 120 mmHg (o popular “12”) reduziu o risco de comprometimento cognitivo leve em comparação com a meta de abaixo de 140 mmHg (“14”). A redução no risco de demência não chegou a ser estatisticamente significativa, em parte porque o estudo foi interrompido antes do previsto. A meta de pressão de cada pessoa é definida pelo médico.
Quando procurar ajuda
Vale conversar com o seu médico e considerar uma avaliação neuropsicológica quando:
- os esquecimentos estão mais frequentes do que antes e começam a atrapalhar o trabalho ou a rotina;
- outras pessoas da família notaram mudanças na memória, na atenção ou no jeito de ser;
- você tem diabetes, pressão alta ou outros fatores de risco vascular e recebeu um laudo de ressonância com alterações;
- há desânimo, ansiedade ou sono ruim junto das queixas de memória.
Esquecimentos súbitos, acompanhados de fraqueza em um lado do corpo, fala enrolada, boca torta ou confusão, são uma emergência: procure atendimento imediatamente ou ligue 192 (SAMU).
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Fontes
- Livingston, G., Huntley, J., Liu, K. Y., et al. (2024). Dementia prevention, intervention, and care: 2024 report of the Lancet standing Commission. The Lancet, 404(10452), 572-628. doi.org/10.1016/S0140-6736(24)01296-0
- Iadecola, C., Yaffe, K., Biller, J., et al. (2016). Impact of hypertension on cognitive function: A scientific statement from the American Heart Association. Hypertension, 68(6), e67-e94. doi.org/10.1161/HYP.0000000000000053
- Biessels, G. J., & Despa, F. (2018). Cognitive decline and dementia in diabetes mellitus: Mechanisms and clinical implications. Nature Reviews Endocrinology, 14(10), 591-604. doi.org/10.1038/s41574-018-0048-7
- Wardlaw, J. M., Smith, E. E., Biessels, G. J., et al. (2013). Neuroimaging standards for research into small vessel disease and its contribution to ageing and neurodegeneration. The Lancet Neurology, 12(8), 822-838. doi.org/10.1016/S1474-4422(13)70124-8
- Fazekas, F., Chawluk, J. B., Alavi, A., et al. (1987). MR signal abnormalities at 1.5 T in Alzheimer's dementia and normal aging. American Journal of Roentgenology, 149(2), 351-356. doi.org/10.2214/ajr.149.2.351
- Schmahmann, J. D. (2003). Vascular syndromes of the thalamus. Stroke, 34(9), 2264-2278. doi.org/10.1161/01.STR.0000087786.38997.9E
- Greenberg, S. M., Vernooij, M. W., Cordonnier, C., et al. (2009). Cerebral microbleeds: A guide to detection and interpretation. The Lancet Neurology, 8(2), 165-174. doi.org/10.1016/S1474-4422(09)70013-4
- Rock, P. L., Roiser, J. P., Riedel, W. J., & Blackwell, A. D. (2014). Cognitive impairment in depression: A systematic review and meta-analysis. Psychological Medicine, 44(10), 2029-2040. doi.org/10.1017/S0033291713002535
- SPRINT MIND Investigators for the SPRINT Research Group (2019). Effect of intensive vs standard blood pressure control on probable dementia: A randomized clinical trial. JAMA, 321(6), 553-561. doi.org/10.1001/jama.2018.21442
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Perguntas frequentes
Diabetes pode causar perda de memória?
O diabetes está associado a pequenas reduções no desempenho cognitivo e a um risco maior de comprometimento cognitivo e demência, sobretudo depois dos 65 anos. Isso não significa que toda pessoa com diabetes vai ter perda de memória. Controle da glicose, sono, humor e atividade física também influenciam.
Pressão alta afeta o cérebro?
Sim. Com os anos, a pressão alta pode danificar os pequenos vasos do cérebro e a substância branca, regiões importantes para a atenção, a velocidade de pensamento e a memória. Ela é um dos 14 fatores de risco modificáveis para demência apontados pela Comissão da Lancet em 2024.
Microangiopatia na ressonância é grave?
Depende do grau e do contexto. Na escala de Fazekas, o grau 1 corresponde a focos pequenos e pontuais, a forma mais leve, que também aparece em pessoas mais velhas sem queixas. O laudo deve ser interpretado pelo médico junto com a história clínica e, quando há queixas cognitivas, com a avaliação neuropsicológica.
O que o tálamo tem a ver com a memória?
O tálamo funciona como uma central de distribuição de informações no centro do cérebro e participa de circuitos de atenção, memória, motivação e humor. Lesões nessa região, dependendo da parte atingida, podem trazer dificuldades de aprendizagem e memória, mesmo quando são pequenas.
A avaliação neuropsicológica substitui o neurologista?
Não. A avaliação neuropsicológica mostra como a memória, a atenção e as outras funções estão funcionando no dia a dia e nos testes. A investigação da causa das alterações da ressonância, os exames complementares e o tratamento médico ficam com o neurologista e com o médico que acompanha a pessoa.
Se eu controlar o diabetes e a pressão, a memória melhora?
Não é possível prometer isso. Controlar esses fatores protege o cérebro e, no estudo SPRINT MIND, o controle mais rigoroso da pressão reduziu o risco de comprometimento cognitivo leve. Tratar o humor e o sono também costuma ajudar. A reavaliação neuropsicológica depois de um período de tratamento mostra como as funções evoluíram.
Faço avaliação neuropsicológica de adultos, online no Brasil e no exterior e presencial em Penha/SC. Uma mensagem basta para começar.





