top of page
Buscar

Autismo e Viagens: O Relato de uma Neuropsicóloga no Espectro

Atualizado: 26 de ago. de 2025

Eu sou a Aline Vicente. Para muitos, sou a neuropsicóloga que conduz avaliações e oferece suporte. Mas hoje, quero me apresentar de um outro lugar: como uma mulher autista de 34 anos. Esta é a história de como uma das minhas maiores paixões viajar é também um dos meus maiores desafios, e como minhas expertise profissional e minha vivência pessoal se entrelaçam para criar estratégias de sobrevivência.


Aos 15 anos, recebi o diagnóstico de Síndrome de Asperger. Anos depois, já na vida adulta, decidi passar pelo processo de avaliação neuropsicológica para me reavaliar. O mundo da neurociência evoluiu, e o Asperger deu lugar ao Transtorno do Espectro Autista (TEA) Nível 1 de Suporte. O laudo também trouxe à tona o TDAH (predominantemente desatento), discalculia e posteriormente Dislexia e as Altas Habilidades/Superdotação.


É uma combinação complexa que, na prática, significa que meu cérebro processa o mundo de uma maneira intensa e, por vezes, avassaladora. E nada prova mais isso do que o ato de viajar.


O Desafio Vestibular: A Ciência por Trás do Mal-Estar

Como profissional da área, sempre busquei entender a fundo minhas próprias condições. Minha luta contra o enjoo de movimento (cinetose) é severa. Carros, ônibus, aviões, elevadores... a sensação vai muito além de um simples desconforto.


Do ponto de vista neuropsicológico, a disfunção vestibular que experiencio está intimamente ligada a dificuldades no processamento sensorial integrativo, muito comum no TEA. Meu sistema recebe os estímulos de movimento, cor e som, mas o "cabo de guerra" neuronal entre o sistema vestibular e o proprioceptivo gera um conflito sensorial incapacitante. A crise se manifesta de forma visceral: dissociação (a sensação de sair do corpo), zumbidos cortantes, perda da voz e náuseas debilitantes.


Passei por diversos especialistas. A maioria atribuía ao "autismo". Outros sugeriam um sistema vestibular "imaturo". Na prática, o resultado era o mesmo: uma vida de limitações. Até que, com a prescrição de um colega endocrinologista, encontrei uma solução química: Meclin 50mg (cloridrato de meclizina). Tomo 1 hora antes de qualquer viagem. Essa medicação não é uma cura, mas uma ferramenta de acessibilidade que me permite funcionar. Em uma jornada recente com 3 voos e 4 horas de ônibus, precisei de uma dosagem rigorosa para me manter consciente e operante. É a ponte que me permite cruzar o abismo da sobrecarga sensorial.


O Hiperfoco como Estratégia: A Neuropsicóloga que Planeja

Aqui, minha profissão e meu autismo se encontram. Minha mente busca previsibilidade e controle. Portanto, minhas viagens são meticulosamente arquitetadas. Crio planilhas com cronogramas hora a hora, com Planos A, B e C para cada eventualidade. Esta não é uma preferência; é uma necessidade neurológica. Sou, paradoxalmente, refém dos horários que eu mesma crio. Um imprevisto não é um mero contratempo; é uma fissura na minha estrutura de contenção da ansiedade, que pode levar a uma sobrecarga e a um shutdown.


A Âncora Externa: A Importância do Suporte (e o Ataque de Gastrite)

Este é um ponto que, como profissional, sempre enfatizo aos meus pacientes e suas famílias: a importância do suporte. Eu, com toda a minha expertise e planejamento, quase perdi um voo. A sobrecarga sensorial do aeroporto foi tanta que, em um momento de overload, deixei meu celular com todas as passagens e documentos digitais na esteira de embarque.


O pânico foi instantâneo e físico. Além da dissociação e dos zumbidos, senti uma dor aguda e queimante no estômago. Em minutos, a ansiedade extrema desencadeou uma crise severa de gastrite nervosa. Era como se o estresse, que meu cérebro não conseguia mais processar, encontrasse uma válvula de escape no meu sistema gastrointestinal. Foi minha companheira de viagem quem manteve a calma, quem encontrou meu celular, quem me lembrou de tomar a medicação no horário certo (não só o Meclin, mas também o Rivotril que sempre levo para essas emergências) e quem foi minha "intérprete" quando a sobrecarga fez minha voz falhar.


Ela é meu suporte de mobilidade invisível. Na prática, ela funciona como a função executiva externa que meu cérebro, sob estresse, às vezes perde. Esse episódio ilustra tragicamente bem que o "Nível 1 de Suporte" não significa "não precisa de suporte". Significa que preciso de suporte em situações específicas e complexas e viajar é uma delas. E mostra, de forma crua, como o sofrimento psíquico do autismo se manifesta de forma física e dolorosa.


Essa foto registra uma crise que vivi durante 1 hora e 22 minutos em um voo, decorrente do esquecimento do meu abafador de ruído e da medicação. Foram mais de 60 minutos de voo de intenso sofrimento, ao ponto de precisar deixar a aeronave em cadeira de rodas. Após receber algumas injeções, consegui me estabilizar e retornar:


O Preço Pós-Viagem: A Ressaca Física e Neural

A chegada ao destino final não é o fim do desafio. É o início de uma nova fase, muitas vezes mais silenciosa e igualmente debilitante: a ressaca da viagem.


Enquanto muitos viajantes sentem um cansaço normal, para mim, é um esgotamento profundo que permeia cada célula do meu corpo. O preço de ter funcionado em um estado de alerta máximo, sob o efeito de uma dosagem alta de medicação e mascarando minhas necessidades sensoriais por horas ou dias a fio, é cobrado com juros.


  • Cansaço Extremo (Burnout Pós-Viagem): Não é apenas sono. É um cansaço cognitivo e físico paralisante. Meu cérebro, que foi forçado a processar um volume anormal de estímulos, simplesmente "desliga". Posso precisar de dois ou três dias apenas para recuperar a capacidade de pensar com clareza, tomar decisões simples ou sequer manter uma conversa. É um burnout autístico em miniatura, desencadeado pelo esforço monumental da viagem.


  • A Ressaca Medicamentosa: Tomar 5 comprimidos de Meclin (e outros para outras condições) em um curto espaço de tempo não passa impune. Nos dias seguintes, luto contra enjoo, tontura residual, boca seca e uma névoa mental espessa. É um paradoxo cruel: a medicação que me salvou da crise aguda agora me deixa em um estado de mal-estar prolongado. Somo isso ao coquetel de medicações de uso contínuo (para TDAH, ansiedade, etc.), cujo equilíbrio foi totalmente perturbado pela carga extra.


  • O Desafio de Retornar à Rotina: Para uma mente autista que prospera em rotina, quebrá-la radicalmente é um terremoto. Retornar para casa não significa simplesmente voltar. Significa ter que reconstruir toda a estrutura mental e física que foi desmontada. As máscaras caem, a overstimulation acumulada transborda, e tasks simples como responder e-mails, ir ao mercado ou retomar o trabalho se tornam montanhas intransponíveis por alguns dias. A necessidade de controle, antes usada no planejamento, agora se volta para tentar recuperar desesperadamente o controle sobre um sistema interno em frangalhos.


Esta fase de recuperação é tão crucial quanto o próprio preparo para a viagem. É um período de gentileza consigo mesma, de permitir-se descansar sem culpa e de entender que o prazer da experiência veio com um custo neurofisiológico que meu corpo e minha mente precisam, respeitosamente, pagar.


O Mundo Inacessível: Um Olhar Crítico de Quem Vive e Estuda o Tema

Viajar sendo autista é um exercício diário de resiliência em um mundo que ignora a acessibilidade sensorial. Aeroportos são arenas de estímulos: luzes fluorescentes, anúncios estridentes, aglomerações que invadem o espaço pessoal. O olhar das pessoas diante de uma crise ou de uma stimming (autoestimulação) não é de empatia, mas de estranhamento.


A viagem, que deveria ser prazer, se torna uma batalha neurofisiológica. E é uma batalha que eu escolho trazer à luz, não apenas como Aline, a autista, mas como Aline Vicente, a neuropsicóloga. Porque a inclusão só acontece quando a sociedade entende as necessidades invisíveis.


Eu viajo não apesar do meu autismo, mas com ele. Com toda a bagagem de remédios, planilhas e fones de ouvido com cancelamento de ruído. E trago na minha mala não apenas roupas, mas a certeza de que compartilhar esta realidade é um passo crucial para um mundo mais compreensivo e verdadeiramente inclusivo.


Minha jornada me deu uma perspectiva única: a do profissional que também vive a realidade. Se você busca uma avaliação neuropsicológica ou suporte que combine rigor científico com entendimento empático profundo, você encontrou o lugar certo. Entre em contato e vamos conversar.

Psicóloga Aline Vicente - Neuropsicóloga - CRP 12/20020 Especialista em Avaliação Neuropsicológica e Neurodiversidade

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page