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Autismo, TDAH e AH/SD no diagnóstico tardio: por que confunde tanto (principalmente em mulheres) e como a avaliação neuropsicológica diferencia

Por que você pode estar se sentindo perdida mesmo pesquisando muito

Se você chegou até aqui, provavelmente já leu dezenas de relatos, fez testes online, salvou vídeos, talvez até chorou vendo alguém descrever exatamente o que você sente. E, ainda assim, continua com a sensação de estar perdida. Eu escuto isso quase toda semana no consultório:“Eu me identifiquei com tudo, mas ao mesmo tempo não me encaixo 100% em nada.”


Esse é o ponto. A internet trabalha com identificação. A clínica trabalha com diferenciação.

Quando falamos de diagnóstico tardio de autismo em mulheres, ou da dúvida entre autismo ou TDAH, ou ainda da hipótese de altas habilidades/superdotação (AH/SD), estamos falando de condições que compartilham sintomas aparentes, mas têm mecanismos diferentes por trás.

E é justamente isso que confunde.


Não é porque você se reconhece em traços de três coisas que você “tem tudo”. Pode ser uma delas. Pode ser duas. Pode ser outra coisa. Pode ser um padrão adaptativo ao longo da vida. Pesquisar é importante. Mas pesquisar não organiza hipótese clínica.


O triângulo da confusão: camuflagem, sofrimento e desempenho alto

Quando eu explico isso, gosto de desenhar um triângulo imaginário:


  1. Camuflagem

  2. Sofrimento interno

  3. Desempenho alto


E é aqui que tudo se mistura.


Muitas mulheres chegam com histórico de bom desempenho acadêmico ou profissional. Notas boas. Responsabilidade. Organização externa aparente. Isso leva familiares e até profissionais a descartarem hipóteses como TEA ou TDAH. Só que desempenho não anula sofrimento.


A camuflagem social no autismo, descrita em estudos recentes, mostra que muitas mulheres aprendem a observar, copiar, ensaiar respostas sociais e compensar dificuldades de forma exaustiva. Essa camuflagem está associada a maior risco de ansiedade, depressão e burnout (Hull et al., 2017 – Autism Research).


No TDAH, especialmente no subtipo desatento, a pessoa pode desenvolver hipercompensação, perfeccionismo ou trabalhar no limite da exaustão para manter o nível de entrega. Na AH/SD, o desempenho alto pode mascarar dificuldades de regulação emocional ou funções executivas. Então o triângulo se fecha:Ela performa bem.Ela sofre muito.Ela esconde. E todo mundo olha só para a ponta visível.


Quando parece “só ansiedade”, mas não é só

Muita coisa vira ansiedade na vida adulta. Insônia. Ruminação. Irritabilidade. Fadiga. Sensibilidade sensorial. Procrastinação. Exaustão social.


Mas ansiedade é um sintoma transversal. Ela pode ser primária ou secundária. No autismo em mulheres, a ansiedade muitas vezes surge da sobrecarga social crônica, da necessidade de mascaramento constante e da hipersensibilidade sensorial.


No TDAH, ela pode vir da frustração repetida, da sensação de incompetência, do histórico de críticas e da desorganização interna.


Na dupla excepcionalidade, pode vir da discrepância entre potencial e execução.

Aqui entra um ponto ético importante:Não existe diagnóstico pela internet. Identificação não é conclusão.


O DSM-5-TR (American Psychiatric Association, 2022) estabelece critérios específicos para TEA e TDAH que exigem avaliação clínica estruturada, história do desenvolvimento e análise funcional. O mesmo vale para critérios da CID-11 (OMS, 2019).


Se alguém reduz tudo a “é só ansiedade” sem investigar trajetória de vida, desenvolvimento infantil e padrão cognitivo, algo ficou superficial. Mas o contrário também é verdadeiro: não é porque você se identifica com traços de autismo que você necessariamente tem TEA. A diferença está na organização do conjunto.


TEA em mulheres e camuflagem: exemplos concretos de mascaramento

Vamos ser práticas. Camuflagem não é “mentir”. É adaptar-se para sobreviver socialmente.


Exemplos que eu vejo com frequência:

  • Ensaiar conversas mentalmente antes de eventos sociais.

  • Observar padrões de comportamento e replicá-los.

  • Ter roteiros internos para pequenas interações.

  • Forçar contato visual.

  • Estudar expressões faciais.

  • Imitar entonações.

  • Ter interesses intensos, mas socialmente aceitáveis.

  • Sentir exaustão profunda após encontros sociais, mesmo “indo bem”.


Pesquisas mostram que mulheres autistas pontuam mais alto em medidas de mascaramento social do que homens (Hull et al., 2020; Lai et al., 2017 – The Lancet Psychiatry).


E o problema não é só diagnóstico tardio. A camuflagem prolongada está associada a maior risco de depressão, ideação suicida e esgotamento (Cassidy et al., 2018 – Molecular Autism).

Quando o mundo vê “ela se comunica bem”, ignora o custo interno. E é por isso que o diagnóstico tardio de autismo em mulheres é tão comum. O critério diagnóstico é o mesmo, mas a apresentação clínica é diferente. Não é menos autismo. É outro padrão de expressão.


AH/SD e dupla excepcionalidade: por que superdotação não protege de sofrimento

Aqui vem um mito que eu gosto de desmontar com cuidado: “Se ela é superdotada, então não pode ter dificuldade.” Pode. E muitas vezes tem.


O modelo de Joseph Renzulli descreve altas habilidades como a interação entre habilidade acima da média, criatividade e comprometimento com a tarefa. Não é sinônimo de QI isolado.

Uma pessoa com altas habilidades/superdotação e autismo, ou AH/SD e TDAH, configura o que chamamos de dupla excepcionalidade.


Ela pode ter raciocínio abstrato sofisticado e, ao mesmo tempo, dificuldade de organização cotidiana. Pode ter leitura precoce e ainda apresentar rigidez comportamental ou dificuldades sociais.


A alta capacidade cognitiva pode mascarar déficits executivos.


Ou seja, inteligência não neutraliza sofrimento emocional nem altera critérios diagnósticos.

A literatura sobre dupla excepcionalidade mostra que essas pessoas frequentemente passam despercebidas porque compensam déficits com habilidades cognitivas elevadas (Foley-Nicpon et al., 2011 – Gifted Child Quarterly).


Desempenho alto não é sinônimo de regulação interna estável.


O que uma avaliação neuropsicológica “bem feita” integra (e o que ela não faz)

Aqui eu preciso ser técnica. Uma avaliação neuropsicológica em adultos não é um teste isolado. Não é um questionário. Não é uma impressão subjetiva.


Ela integra:

  • Entrevista clínica detalhada

  • História do desenvolvimento

  • Relatos de terceiros quando possível

  • Observação comportamental

  • Testes padronizados com validade psicométrica

  • Avaliação de funções executivas

  • Atenção

  • Memória

  • Linguagem

  • Raciocínio

  • Perfil intelectual

  • Escalas específicas para TEA e TDAH quando indicadas


    No Brasil, utilizamos instrumentos validados e aprovados pelo SATEPSI/CFP. Seguimos critérios do DSM-5-TR e da CID-11. E a interpretação não é soma de pontuação. É análise integrada.


Por exemplo:

Dificuldade em funções executivas pode estar presente tanto no TDAH quanto no TEA. A diferença está no padrão qualitativo, no histórico de início, na rigidez comportamental, na reciprocidade social e na presença de interesses restritos.


Alta habilidade pode elevar índices de raciocínio, mas não elimina possíveis fragilidades em flexibilidade cognitiva ou controle inibitório.


A avaliação também diferencia:

  • Transtornos de humor

  • Transtornos de ansiedade

  • Transtornos de personalidade

  • Condições médicas

  • Padrões adaptativos


O que ela não faz:

  • Não cria identidade.

  • Não define seu valor.

  • Não explica toda sua história de vida.

  • Não é rótulo moral.


Ela organiza hipóteses com base em evidência.


Como interpretar “resultado” sem virar rótulo: devolutiva como intervenção

Eu sempre digo: a devolutiva é parte do tratamento. Quando um resultado é apresentado de forma técnica, mas humanizada, ele não aprisiona. Ele organiza.


Entender que sua dificuldade não é preguiça, mas padrão executivo específico, muda a narrativa interna. Entender que sua exaustão social tem explicação neurobiológica reduz culpa.

Entender que alta habilidade não exige perfeição constante desmonta autocobrança tóxica. Resultado não é sentença. É mapa. E mapa serve para planejar rota.


Se você quer diferenciar hipóteses com segurança

Se você está tentando diferenciar autismo ou TDAH, ou questionando um possível diagnóstico tardio de autismo em mulheres, ou refletindo sobre altas habilidades superdotação e autismo, procure avaliação com metodologia clara.


Pergunte:

  • Quais instrumentos são usados?

  • Como é feita a análise integrada?

  • Há investigação da história do desenvolvimento?

  • Existe devolutiva estruturada?

  • Há fundamentação em DSM-5-TR e CID-11?

  • O profissional trabalha com funções executivas e dupla excepcionalidade?


Avaliação séria não é rápida. Não é superficial. Não é baseada só em identificação.

É construída com evidência, técnica e responsabilidade.


Se você quer organizar suas hipóteses com segurança, esse é o caminho.


Referências essenciais

  • American Psychiatric Association. (2022). DSM-5-TR.

  • Organização Mundial da Saúde. (2019). CID-11.

  • Hull, L. et al. (2017). Camouflaging in Autism. Autism Research.

  • Cassidy, S. et al. (2018). Risk of suicidality in autism. Molecular Autism.

  • Lai, M.-C. et al. (2017). Sex/gender differences in autism. The Lancet Psychiatry.

  • Foley-Nicpon, M. et al. (2011). Twice-exceptional students. Gifted Child Quarterly.

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Parabéns Aline! Além da importância do tema, você criou uma linha de raciocínio didática, clara e consistente.

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