Entendendo os Transtornos Neurocognitivos: Foco na Etiologia Vascular
- Neuropsicológa Aline Vicente
- 3 de jun. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 26 de ago. de 2025
Por Dra. Aline Vicente, Neuropsicóloga

Como neuropsicóloga, acompanho diariamente como alterações cognitivas impactam vidas. Hoje, quero abordar os Transtornos Neurocognitivos (TNCs), conforme o DSM-5-TR (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), com ênfase em uma causa frequente: a etiologia vascular. Vou compartilhar também um caso clínico (com dados alterados para preservar identidade) que ilustra essa condição.
O Que São Transtornos Neurocognitivos?
Os TNCs envolvem declínio significativo em funções cognitivas como memória, atenção, linguagem ou funções executivas, interferindo na autonomia do indivíduo. O DSM-5-TR classifica-os em maiores (comprometimento severo) e leves (sintomas mais sutis), e os divide por etiologia:
Doença de Alzheimer
Degeneração Frontotemporal
Corpos de Lewy
Doença Vascular
Traumatismo Craniano
Induzidos por Substâncias/Medicações
Infecção por HIV
Doença Priônica
Doença de Parkinson
Doença de Huntington
Outras Condições Médicas
Múltiplas Etiologias
Transtorno Neurocognitivo Vascular: Quando a Circulação Sanguínea Afeta o Cérebro
Este tipo de TNC resulta de lesões cerebrovasculares, como AVCs, microangiopatias ou isquemias crônicas. Diferentemente do Alzheimer (progressão lenta), o declínio costuma ser abrupto ou escalonado, acompanhando eventos vasculares.
Sintomas Característicos:
Comprometimento de atenção complexa (dificuldade em multitarefas).
Funções executivas prejudicadas (planejamento, organização).
Alterações de memória (dificuldade em consolidar novas informações).
Possível associação com sintomas depressivos ou apatia.
Caso Clínico (Exemplo Ilustrativo): O Sr. Carlos
Dados alterados para confidencialidade.
O Sr. Carlos, 58 anos, com ensino fundamental incompleto e histórico de hipertensão, foi encaminhado após dois Acidentes Vasculares Cerebrais (AVCs). Suas queixas incluíam:
Esquecimentos frequentes (perdia objetos, esquecia compromissos).
Dificuldade em trabalhar (não conseguia organizar tarefas no restaurante onde era auxiliar).
Desorientação espacial (perdia-se em locais conhecidos).
Sintomas depressivos (apatia, choro fácil).
Avaliação Neuropsicológica:
Atenção: Desempenho muito inferior em testes de atenção concentrada, dividida e alternada (BPA e FDT).
Memória: Comprometimento severo em memória auditiva (RAVLT) e visual (TEPIC-M2), com dificuldade de evocação mesmo com pistas.
Funções Executivas: Planejamento extremamente prejudicado (TOL-BR no percentil 2), além de rigidez cognitiva e lentidão.
Emocional: Escore elevado no BDI-II, indicando depressão moderada a grave.
Neuroimagem:
Ressonância magnética evidenciou áreas de gliose e alterações isquêmicas crônicas compatíveis com microangiopatia, reforçando a hipótese vascular.
Diagnóstico Final:
Transtorno Neurocognitivo Maior devido a Doença Vascular (CID-11: 6D81.2 / DSM-5-TR: F01.50).
Transtorno Depressivo Recorrente (comórbido).
Por Que o Diagnóstico Diferencial É Crucial?
No caso do Sr. Carlos, a depressão agravava os sintomas, mas não explicava a magnitude dos déficits. O histórico de AVCs e as lesões visíveis em neuroimagem foram determinantes para confirmar a etiologia vascular. Isso direcionou o tratamento:
Neurologista: Controle de riscos vasculares (pressão arterial, diabetes).
Psiquiatria: Medicação para depressão e estabilização do humor.
Neuropsicologia: Reabilitação cognitiva para estratégias compensatórias.
Tratamento e Perspectivas
O TNC vascular não tem cura, mas pode ser estabilizado com:
Prevenção secundária: Controle rigoroso de fatores de risco (hipertensão, diabetes, tabagismo).
Medicação: Inibidores de colinesterase podem ajudar em alguns casos.
Reabilitação Cognitiva: Treino de memória, atenção e funções executivas.
Suporte Emocional: Psicoterapia para lidar com perdas cognitivas e depressão.
Mensagem Final
Transtornos neurocognitivos são mais que "perdas de memória". São condições complexas que exigem diagnóstico preciso e abordagem multidisciplinar. O caso do Sr. Carlos mostra como a etiologia vascular exige atenção redobrada: cada AVC é um golpe na cognição.
Se você ou alguém próximo apresenta declínio cognitivo súbito após eventos vasculares, busque avaliação especializada. Quanto antes identificarmos a causa, melhor poderemos preservar a autonomia e a qualidade de vida.
Dra. Aline Vicente Neuropsicóloga | CRP 12/20020
📱+55 (47) 3240-0805
Referências: DSM-5-TR (APA, 2023); CID-11 (OMS). Caso clínico com dados fictícios baseado em experiências reais.
